Breve crítica da dita “bomba demográfica”, que ameaça nossa aposentadoria

“Com envelhecimento da população, Brasil se aproxima de cenário insustentável, onde mais idosos demandam benefícios e menos jovens financiam o sistema”, diz o coro dos contentes.

Primeiramente, o sistema da seguridade não é e não deve ser financiado apenas pela contribuição dos trabalhadores. Os empregadores devem contribuir, assim como empregadores e o Estado. Portanto, o envelhecimento da população por si não torna o sistema insustentável. Mas vejamos alguns dados (consolidados e estimados pelo IBGE) para entender como se comporta a capacidade dos trabalhadores contribuirem entre 2001 e 2060:

  • o ápice da curva se dá entre 2008 e 2022. Ainda nem sequer saimos da sitação de máxima população laboral no Brasil;
  • a diferença entre 2001 (65%) e 2060 (60%) é de apenas 5%. Deve ser ainda menor entre 1988, ano da consolidação constitucional da seguridade, e 2060.

Portanto o sistema não é menos viável agora do que era na época em que foi implantado. É verdade que a população de 2060 vai ter mais idosos e menos crianças que a população de 2001, e ainda que o custo dos cuidados com os idosos deva ser superior ao custo dos cuidados com as crianças, mas é no mínimo injusto dizer que o envelhecimento que ocorre na população brasileira torna o sistema da seguridade impraticável.

Democracia em vertigem

Vale a pena assistir documentário sobre política brasileira, disponível no Netflix

Boa pauta, bom ritmo, boa qualificação teórica e imagens belíssimas facilitam a indicação do documentário

O documentário de Petra Costa apóia-se na história da autora expondo uma crítica afetiva da experiência petista no Brasil. As orientações populares do período petista, ainda que tenham sido frustradas, são um princípio justo, ainda mais diante das contradições e propostas quase abertamente regressivas dos governos que sucederam o impedimento de Dilma Rousseff. Aprofundando nas boas intenções da cúpula petista, a autora não deixa de pontuar a insistência na estratégia de conciliação de classes e contradição fundamental da estratégia democrática e popular, explicada em palavras simples por Gilberto Carvalho (ex sectretário geral da presidência, do PT).

O bom documentário não aprofunda, mas, de toda forma, anima uma discussão melhor sobre algo que os trabalhadores mais simples deixam claro na cobertura: o PT fez por merecer. Quais os erros, as contradições e os acertos deste projeto político que caracterizou os último anos da esperança de desenvolvimento nacional que acompanharam a industrialização? Para além de dizer que Lula é ladrão ou traidor de classes, qual o erro da estratégia petista?

Uma crítica não pode deixar de ser feita: o trailer do documentário traz uma impressão falsa de fanatismo e despolitização. Como peça de divulgação, ele afasta o público mais distanciado da catarse petista e prejudica as impressões antecipadas da obra. Eu pediria que os leitores desconsidassem o trailer e concentrassem na pertinência temática da obra.

O que queremos. Porque podemos!

É verdade que falta referências para dizer do Brasil que queremos, mas não é verdade que não somos capazes de dizer, cada dia com mais clareza, um pouco do que queremos. E a única forma de fazer isto é dizendo. Este blog é um espaço coletivo de aprendizado e comunicação política. Porque mesmo que as novidades ainda não tenham nome, as pessoas já chamam por elas.

O novo campo conservador que assume as rédeas do governo em Brasília não nos representa. Para além de suas concepções elitistas, racistas, machistas e pouco científicas, as diretrizes de privatizar o Brasil e cortar direitos sociais não convence de que nos trará soluções nem tampouco têm nada de novo nisso.

Por outro lado, não achamos que os anos que o Brasil viveu sob o comando do PT é exemplo de uma construção diferente. A tradição petista usou da confiaça que tinha junto aos trabalhadores Brasileiros para roubar e restringir nosso horizonte de mudanças ao menos pior, qualquer coisa não-PSDB, qualquer coisa não-Bolsonaro. Não nos serve.

Aqui esperamos conseguir desenvolver com calma, e sem o furor de paixões, o que queremos, por que podemos. Esperamos aprender mais neste processo e quem sabe ajudar a formar um novo radicalismo político ao mesmo tempo inclusivo, combativo, inteligente e sério. Temos toda certeza de que o melhor que o Brasil, ou nosso estado ou nossa cidade, pode fazer pelo seu povo é muito mais que as insuficientes experiências que vivemos desde a redemocratização, incluindo a velha novidade dos dias de hoje.